quinta-feira, maio 03, 2007
segunda-feira, abril 30, 2007
Coração Valente
Disse ao meu coração: Olha por quantos
Caminhos vãos andámos! Considera
Agora, d'esta altura fria e austera,
Os ermos que regaram nossos prantos...
Pó e cinzas, onde houve flor e encantos!
E noite, onde foi luz de primavera!
Olha a teus pés o mundo e desespera
Semeador de sombras e quebrantos!--
Porém o coração, feito valente
Na escola da tortura repetida,
E no uso do penar tornado crente,
Respondeu: D'esta altura vejo o Amor!
Viver não foi em vão, se é isto a vida,
Nem foi de mais o desengano e a dor.
Antero de Quental
terça-feira, abril 24, 2007
Sobre o lado esquerdo
De vez em quando a insónia vibra com a
nitidez dos sinos, dos cristais. E então, das duas
uma: partem-se ou não se partem as cordas tensas
da sua harpa insuportável.
No segundo caso, o homem que não dorme
pensa: «o melhor é voltar-me para o lado esquerdo
e assim, deslocando todo o peso do sangue
sobre a metade mais gasta do meu corpo,
esmagar o coração».
Carlos de Oliveira
nitidez dos sinos, dos cristais. E então, das duas
uma: partem-se ou não se partem as cordas tensas
da sua harpa insuportável.
No segundo caso, o homem que não dorme
pensa: «o melhor é voltar-me para o lado esquerdo
e assim, deslocando todo o peso do sangue
sobre a metade mais gasta do meu corpo,
esmagar o coração».
Carlos de Oliveira
sábado, abril 21, 2007
sábado, abril 14, 2007
A ninguém senão ao mar...
A ninguém senão ao mar nas suas longas marés
entregues essa árvore verde e azul que mora
no silêncio do coração e sobreviveu às tempestades.
É maior o silêncio do que o deserto, e mais vazio
do que o nome que subiu aos lábios. A ninguém
senão ao mar, por entre ilhas e continentes submersos
e antigos, devolvas as cartas de marear ou esse limite
dos horizontes antes da noite, porque nada mais
do que um silêncio há-de ficar, para chorar, nada mais
do que um acordar, e adormecer, nada mais do que essa
árvore que habitava o peito, como só o mar pode habitar.
Francisco José Viegas
entregues essa árvore verde e azul que mora
no silêncio do coração e sobreviveu às tempestades.
É maior o silêncio do que o deserto, e mais vazio
do que o nome que subiu aos lábios. A ninguém
senão ao mar, por entre ilhas e continentes submersos
e antigos, devolvas as cartas de marear ou esse limite
dos horizontes antes da noite, porque nada mais
do que um silêncio há-de ficar, para chorar, nada mais
do que um acordar, e adormecer, nada mais do que essa
árvore que habitava o peito, como só o mar pode habitar.
Francisco José Viegas
quarta-feira, abril 11, 2007
Ária
O amor desconhece o caos das
águas as vagas
os surtos que se cruzam
irrompendo
o cerco das cidades como lagos
onde termina o curso das correntes
Gastão Cruz
sábado, abril 07, 2007
Sonhos por haver
Na noite terrível, substância natural de todas as noites,
Na noite de insónia, substância natural de todas as minhas noites,
Relembro, velando em modorra incómoda,
Relembro o que fiz e o que podia ter feito na vida.
Relembro, e uma angústia
Espalha-se por mim como um frio do corpo ou um medo.
O irreparável do meu passado--esse é que é o cadáver!
Todos os outros cadáveres pode ser que sejam ilusão.
Todos os mortos pode ser que sejam vivos noutra parte.
Todos os meus próprios momentos passados pode ser que existam algures,
Na ilusão do espaço e do tempo,
Na falsidade do decorrer.
Mas o que eu não fui, o que eu não fiz, o que eu nem sequer sonhei;
O que só agora vejo que deveria ter feito,
O que só agora claramente vejo que deveria ter sido--
Isso é que é morto para além de todos os Deuses,
Isso--e foi afinal o melhor de mim--é que nem os Deuses fazem viver...
Se em certa altura
Tivesse voltado para a esquerda em vez de para a direita;
Se em certo momento
Tivesse dito sim em vez de não, ou não em vez de sim;
Se em certa conversa
Tivesse tido as frases que só agora, no meio-sono, elaboro--
Se tudo isso tivesse sido assim,
Seria outro hoje, e talvez o universo inteiro
Seria insensivelmente levado a ser outro também.
Mas não virei para o lado irreparavelmente perdido,
Não virei nem pensei em virar, e só agora o percebo;
Mas não disse não ou não disse sim, e só agora vejo o que não disse;
Mas as frases que faltou dizer nesse momento surgem-me todas,
Claras, inevitáveis, naturais,
A conversa fechada concludentemente,
A matéria toda resolvida...
Mas só agora o que nunca foi, nem será para trás, me dói.
O que falhei deveras não tem esperança nenhuma
Em sistema metafísico nenhum.
Pode ser que para outro mundo eu possa levar o que sonhei.
Mas poderei eu levar para outro mundo o que me esqueci de sonhar?
Esses sim, os sonhos por haver, é que são o cadáver.
Enterro-o no meu coração para sempre, para todo o tempo, para todos os universos.
Nesta noite em que não durmo, e o sossego me cerca
Como uma verdade de que não partilho,
E lá fora o luar, como a esperança que não tenho, é invisível pra mim.
Álvaro de Campos
Na noite de insónia, substância natural de todas as minhas noites,
Relembro, velando em modorra incómoda,
Relembro o que fiz e o que podia ter feito na vida.
Relembro, e uma angústia
Espalha-se por mim como um frio do corpo ou um medo.
O irreparável do meu passado--esse é que é o cadáver!
Todos os outros cadáveres pode ser que sejam ilusão.
Todos os mortos pode ser que sejam vivos noutra parte.
Todos os meus próprios momentos passados pode ser que existam algures,
Na ilusão do espaço e do tempo,
Na falsidade do decorrer.
Mas o que eu não fui, o que eu não fiz, o que eu nem sequer sonhei;
O que só agora vejo que deveria ter feito,
O que só agora claramente vejo que deveria ter sido--
Isso é que é morto para além de todos os Deuses,
Isso--e foi afinal o melhor de mim--é que nem os Deuses fazem viver...
Se em certa altura
Tivesse voltado para a esquerda em vez de para a direita;
Se em certo momento
Tivesse dito sim em vez de não, ou não em vez de sim;
Se em certa conversa
Tivesse tido as frases que só agora, no meio-sono, elaboro--
Se tudo isso tivesse sido assim,
Seria outro hoje, e talvez o universo inteiro
Seria insensivelmente levado a ser outro também.
Mas não virei para o lado irreparavelmente perdido,
Não virei nem pensei em virar, e só agora o percebo;
Mas não disse não ou não disse sim, e só agora vejo o que não disse;
Mas as frases que faltou dizer nesse momento surgem-me todas,
Claras, inevitáveis, naturais,
A conversa fechada concludentemente,
A matéria toda resolvida...
Mas só agora o que nunca foi, nem será para trás, me dói.
O que falhei deveras não tem esperança nenhuma
Em sistema metafísico nenhum.
Pode ser que para outro mundo eu possa levar o que sonhei.
Mas poderei eu levar para outro mundo o que me esqueci de sonhar?
Esses sim, os sonhos por haver, é que são o cadáver.
Enterro-o no meu coração para sempre, para todo o tempo, para todos os universos.
Nesta noite em que não durmo, e o sossego me cerca
Como uma verdade de que não partilho,
E lá fora o luar, como a esperança que não tenho, é invisível pra mim.
Álvaro de Campos
quarta-feira, abril 04, 2007
sábado, março 31, 2007
sábado, março 24, 2007
Águas Mil
Regressaram as chuvas.
Outra foi a água e mais pura.
A minha água afasta a alegria e os pássaros.
A minha água não apaga os incêndios,
nem a loucura.
nem a loucura.
José Agostinho Baptista
quinta-feira, março 22, 2007
quarta-feira, março 21, 2007
terça-feira, março 20, 2007
Adeus
Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras da rua
em esperas inúteis.
Meto as mãos nas algibeiras
e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao
outro!
Era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes
verdes!
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos.
Era no tempo em que o teu corpo era um aquário.
Era no tempo em que os meus olhos
eram os tais peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco mas é verdade:
uns olhos como todos os outros.
Já gastámos as palavras
quando agora digo: meu amor,
já se não passa absolutamente nada
e no entanto antes das palavras gastas, tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.
Não temos já nada para dar
dentro de ti não há nada que me peça água,
o passado é inútil como um trapo
e já te disse; as palavras estão gastas.
Adeus.
Eugénio de Andrade
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras da rua
em esperas inúteis.
Meto as mãos nas algibeiras
e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao
outro!
Era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes
verdes!
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos.
Era no tempo em que o teu corpo era um aquário.
Era no tempo em que os meus olhos
eram os tais peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco mas é verdade:
uns olhos como todos os outros.
Já gastámos as palavras
quando agora digo: meu amor,
já se não passa absolutamente nada
e no entanto antes das palavras gastas, tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.
Não temos já nada para dar
dentro de ti não há nada que me peça água,
o passado é inútil como um trapo
e já te disse; as palavras estão gastas.
Adeus.
Eugénio de Andrade
quarta-feira, março 14, 2007
A Pele das Coisas
A surda sabedoria
que existe nas palavras
por vezes não se revela.
Tuas mãos necessitam
tocar a pele das coisas
que continuam caladas,
procurando apreender
a razão e o segredo
da sua metamorfose.
Porém a pele das coisas
que chegam ao mundo é
como chama de cristal
acaba por ofuscar
seu próprio entendimento.
Fernando Ilharco Morgado
que existe nas palavras
por vezes não se revela.
Tuas mãos necessitam
tocar a pele das coisas
que continuam caladas,
procurando apreender
a razão e o segredo
da sua metamorfose.
Porém a pele das coisas
que chegam ao mundo é
como chama de cristal
acaba por ofuscar
seu próprio entendimento.
Fernando Ilharco Morgado
domingo, março 11, 2007
quinta-feira, março 01, 2007
Verbos
Sofrer é outro nome
do acto de viver.
Não há literatura
que dome a onça escura.
Amar, nome-programa
de muito procurar.
Mas quem afirma que eu
sei o reflexo meu?
Rir, astúcia do rosto
na ameaça do sentir.
Jamais se soube ao certo
o que oculta um deserto.
Esquecer, outro nome
do ofício de perder.
Uma inútil lanterna
jaz em cada caverna.
Verbos outros imperam
em momentos acerbos.
Mas para que nomeá-los,
imperfeitos gargalos.
Carlos Drummond de Andrade
do acto de viver.
Não há literatura
que dome a onça escura.
Amar, nome-programa
de muito procurar.
Mas quem afirma que eu
sei o reflexo meu?
Rir, astúcia do rosto
na ameaça do sentir.
Jamais se soube ao certo
o que oculta um deserto.
Esquecer, outro nome
do ofício de perder.
Uma inútil lanterna
jaz em cada caverna.
Verbos outros imperam
em momentos acerbos.
Mas para que nomeá-los,
imperfeitos gargalos.
Carlos Drummond de Andrade
terça-feira, fevereiro 20, 2007
O abismo
Whether we write or speak or do but look
We are ever unapparent. What we are
Cannot be transfused into word or book.
Our soul from us is infinitely far.
However much we give our thoughts the will
To be our soul and gesture it abroad,
Our hearts are incommunicable still.
In what we show ourselves we are ignored.
The abyss from soul to soul cannot be bridged
By any skill of thought or trick of seeming.
Unto our very selves we are abridged
When we would utter to our thought our being.
We are our dreams of ourselves, souls by gleams,
And each to each other dreams of others’ dreams.
Fernando Pessoa
sexta-feira, fevereiro 16, 2007
sábado, fevereiro 03, 2007
segunda-feira, janeiro 29, 2007
Identificação
A paixão, descobri, era isto: ao mesmo tempo, um desejo ansioso e total de posse exclusiva, e um reconhecimento, entre desesperado e feliz, de todos se identificarem connosco. No momento em que, pela paixão, nos sentíamos mais nós mesmos, era quando todos os outros eram nós mesmos em nós. Mas, se assim acontecia, se, no conhecimento absoluto de nós mesmos pela paixão, nos identificávamos afinal muito menos com o objecto dela que com os outros seres que, nesse objecto, participavam da sua realidade e mesmo a constituíam, a paixão destruía-se a si própria, ou nós próprios nos destruíamos, e os outros nela. Senti uma espécie de vertigem. E logo percebi que nós mesmos inventávamos a paixão.
Jorge de Sena (in «Sinais de Fogo»)
Jorge de Sena (in «Sinais de Fogo»)
sexta-feira, janeiro 26, 2007
quarta-feira, janeiro 24, 2007
A vida é mesmo nossa?
(Quadro de Marc Chagall)
Encostei-me à janela, olhando a noite.
Quanto mais a vida parece nossa, e é mesmo nossa, mais pessoas se misturam nela. E, quantas mais pessoas se misturam nela, mais temos que dizer sem ter a quem. Porque é impossível falar dela aos outros, sem mostrar a que ponto há ainda outros que estão envolvidos, às vezes sem sequer saberem que o estão. Por isso, talvez, é que as pessoas falavam tanto, sem dizer nada, precisamente para disfarçarem quanto sabiam, e para não revelarem, nem a si mesmas, os segredos de que eram as depositárias. Ou se abandonavam às ordens de alguém, ou de uma igreja, ou de um grupo, ou do que achavam que seria o acaso, para não se sentirem responsáveis por tamanho peso de vidas alheias. Ou ao amor...
Jorge de Sena (in «Sinais de Fogo»)
domingo, janeiro 21, 2007
Os Nomes
damos às mesmas coisas nomes diferentes
e evitamos lugares comuns como aquele que diz
que «a linguagem é uma fonte de mal entendidos»
para esquecer que nos perdemos dos outros
bastaria no entanto que conhecêssemos
as cidades que há dentro dos nomes
e que não esperássemos qualquer outra coisa
que não fosse percorrê-las juntos
bastaria que iluminássemos a distância
e que deixássemos de chamar escuro à infância
ou infância ao escuro, porque há coisas
que não sabemos nem os nomes que lhes dar
José Rui Teixeira
e evitamos lugares comuns como aquele que diz
que «a linguagem é uma fonte de mal entendidos»
para esquecer que nos perdemos dos outros
bastaria no entanto que conhecêssemos
as cidades que há dentro dos nomes
e que não esperássemos qualquer outra coisa
que não fosse percorrê-las juntos
bastaria que iluminássemos a distância
e que deixássemos de chamar escuro à infância
ou infância ao escuro, porque há coisas
que não sabemos nem os nomes que lhes dar
José Rui Teixeira
quarta-feira, janeiro 17, 2007
quarta-feira, janeiro 10, 2007
Primeiro tempo
Com tais extremos e fervores a tratava, que, meio a sorrir meio
séria, meio triste, ela me disse, uma vez:
-- Olha que eu não sou nenhuma santa! Tenho os meus defeitos...
até dizem que muitos.
-- Bem sei -- respondi-lhe eu, encantado. -- Nem eu podia amar
uma santa, ao menos como te amo a ti! Quero uma mulher... uma
mulherzinha como tu...
Estávamos em vésperas do grande dia; e já, então, muitas vezes os
meus beijos afogavam e completavam as minhas palavras.
José Régio (in «O Vestido Cor de Fogo»)
séria, meio triste, ela me disse, uma vez:
-- Olha que eu não sou nenhuma santa! Tenho os meus defeitos...
até dizem que muitos.
-- Bem sei -- respondi-lhe eu, encantado. -- Nem eu podia amar
uma santa, ao menos como te amo a ti! Quero uma mulher... uma
mulherzinha como tu...
Estávamos em vésperas do grande dia; e já, então, muitas vezes os
meus beijos afogavam e completavam as minhas palavras.
José Régio (in «O Vestido Cor de Fogo»)
quinta-feira, janeiro 04, 2007
Que desaparecido fulgor...?
Que desaparecido fulgor regressa a estes olhos,
a esta casa?
Estás sentado, chove em todos os pátios.
Em ti nasce o orvalho, nas salas o bolor instala-se.
Lentos são os cabelos, tristes pelo tempo fora.
Nada floresce nas sombras da idade.
Se ao menos,
se ao menos junto às serras uivasse o lobo e com
a neve descesse e o medo descendo.
Estás sentado
onde as muralhas se desalinham no teu sentir.
Sentes cada minuto que cresce por dentro dos temporais,
mergulhas o ouvido na reentrância das nascentes.
Pouca água cantará o teu sonho de agosto.
Se ela te visse...
(...)
José Agostinho Baptista
a esta casa?
Estás sentado, chove em todos os pátios.
Em ti nasce o orvalho, nas salas o bolor instala-se.
Lentos são os cabelos, tristes pelo tempo fora.
Nada floresce nas sombras da idade.
Se ao menos,
se ao menos junto às serras uivasse o lobo e com
a neve descesse e o medo descendo.
Estás sentado
onde as muralhas se desalinham no teu sentir.
Sentes cada minuto que cresce por dentro dos temporais,
mergulhas o ouvido na reentrância das nascentes.
Pouca água cantará o teu sonho de agosto.
Se ela te visse...
(...)
José Agostinho Baptista
terça-feira, janeiro 02, 2007
sábado, dezembro 30, 2006
às vezes perdemos tudo

às vezes perdemos tudo
e aquilo que era estreito
e que habitava os dias
torna-se imenso
cresce desmedidamente no ventre das memórias
e quando não cabe lá dentro
rebenta o que cuidadosamente muralhámos
e inunda a planície em que pastam os nossos medos
no rebanho então tresmalhado do nosso passado
nesse momento dói tanto estar vivo
às vezes perdemos tudo
e aquilo que vivemos sem dar conta
e que no fundo éramos nós a respirar
grita-nos aos ouvidos que estamos a morrer
porque não sabemos viver quando perdemos tudo
grita-nos aos ouvidos que há oceanos que não sabemos muralhar
e que o nosso passado não existe realmente
porque perdemos o mapa da terra longínqua
da ilha esquecida
em que um dia o enterrámos
às vezes perdemos tudo
e aqueles que amámos à volta da mesa
a quem amarrámos as nossas mão e jurámos amar para sempre
ficam tão longe
tão longe
e nessa altura desenterramos mesmo o que nunca chegámos a enterrar
mergulhamos sofregamente as mãos numa terra em ruínas
que outrora eram muralhas inabaláveis
sempre que perdemos tudo
percebemos que há minutos que são milénios imensos
e descobrimos que a vida que vivíamos sem dar conta
e que no fundo éramos nós a respirar
é um milagre cheio de elementos
que reconhecemos e em quem nos identificamos
um milagre onde habitam as pessoas a quem amarrámos as nossas mãos
e jurámos amar para sempre
um milagre que existe para lá das memórias que quisemos muralhar
e que no fundo nunca soubemos compreender
José Rui Teixeira
sexta-feira, dezembro 29, 2006
quinta-feira, dezembro 28, 2006
Perfil

O autor destas páginas também desenha, e não sabe expressar
por palavras a extraordinária impressão que recebe sempre que
copia o perfil de qualquer pessoa. A natureza chega tão complexa
às feições de cada um que somos forçados a não poder aceitar
cada qual resumido ao lugar em que a sociedade o põe. Através
dos séculos, uma linha única e incessantemente seguida acabou por
tornar inimitável o perfil de cada um. Essa linha passa agora desde
o alto da testa até por baixo do queixo, e às vezes lembra a de outros,
mas é intransmissível.
José de Almada Negreiros (in «Nome de Guerra»)
sexta-feira, dezembro 22, 2006
Outros Natais

Natal... Na província neva.
Nos lares aconchegados,
Um sentimento conserva
Os sentimentos passados.
Coração oposto ao mundo,
Como a família é verdade!
Meu pensamento é profundo,
Estou só e sonho saudade.
E como é branca de graça
A paisagem que não sei,
Vista de trás da vidraça
Do lar que nunca terei!
Fernando Pessoa
terça-feira, dezembro 19, 2006
segunda-feira, dezembro 18, 2006
True love leaves no traces
As the mist leaves no scar
on the dark green hill
so my body leaves no scar
on you and never will
Through windows in the dark
the children come, the children go
like arrows with no target
like shackles made of snow
True love leaves no traces
if you and I are one
it's lost in our embraces
like stars agains the sun
As a falling leaf may rest
a moment in the air
so your head upon my breast
so my hand upon your hair
And many nights endure
without a moon or star
so will we endure
when one is gone and far
True love leaves no traces
if you and I are one
it's lost in our embraces
like stars against the sun
Leonard Cohen
on the dark green hill
so my body leaves no scar
on you and never will
Through windows in the dark
the children come, the children go
like arrows with no target
like shackles made of snow
True love leaves no traces
if you and I are one
it's lost in our embraces
like stars agains the sun
As a falling leaf may rest
a moment in the air
so your head upon my breast
so my hand upon your hair
And many nights endure
without a moon or star
so will we endure
when one is gone and far
True love leaves no traces
if you and I are one
it's lost in our embraces
like stars against the sun
Leonard Cohen
sexta-feira, dezembro 15, 2006
quinta-feira, dezembro 14, 2006
Procura
Tomás apareceu pelas onze horas com o carro. Levámos
a nossa mãe à igreja (ela não fora à Missa do Galo), aguardámos
que saisse.
--Já não vais então à missa--disse-me Tomás.
--Há quanto tempo... Mas ainda ouço os coros.
--Como ainda?
(...)
--Como estranhas que eu os ouça?-- disse eu ainda.--
Sabes tu... Sabes tu o que é a vida?
--A vida... Bom. Tu lês muito, tu sabes coisas. É claro,
também leio, também penso. Leio pelas noites de Inverno, a
Isaura rala-se. Mas eu trabalho a terra. É dificil explicar-te: a
gente colabora com a terra. A gente come os frutos, a gente
mata as reses, mas não as destrói. Há um pacto de aliança.
O sol não nos aquece: aquece a terra. É difícil explicar-te.
(...)
Após um longo silêncio, os cânticos irradiaram de novo
da igreja, abrindo no adro como uma grande flor de neve.
--Mas tu não ouves esta música?--perguntei.
--Ouço. Mas não ainda como tu. Hei-de ouvi-la sempre,
suponho.
--Mas não és crente, tu.
--Se o fosse, não a ouvia suponho. Os que estão dentro
não a ouvem: cantam-na. A terra não se conhece a si própria.
--Terás tu... Terás tu achado o que procuro?
...essa superação de todo as angústias, de todas as dúvidas?
Terás tu visto o absurdo e o milagre, e ficado tranquilo?
--Não sei o que queres dizer. Mas tenho a certeza de
que não achei o que procuras. Porque, se tu procuras, só tu
podes achar.
Vergílio Ferreira (in "Aparição")
a nossa mãe à igreja (ela não fora à Missa do Galo), aguardámos
que saisse.
--Já não vais então à missa--disse-me Tomás.
--Há quanto tempo... Mas ainda ouço os coros.
--Como ainda?
(...)
--Como estranhas que eu os ouça?-- disse eu ainda.--
Sabes tu... Sabes tu o que é a vida?
--A vida... Bom. Tu lês muito, tu sabes coisas. É claro,
também leio, também penso. Leio pelas noites de Inverno, a
Isaura rala-se. Mas eu trabalho a terra. É dificil explicar-te: a
gente colabora com a terra. A gente come os frutos, a gente
mata as reses, mas não as destrói. Há um pacto de aliança.
O sol não nos aquece: aquece a terra. É difícil explicar-te.
(...)
Após um longo silêncio, os cânticos irradiaram de novo
da igreja, abrindo no adro como uma grande flor de neve.
--Mas tu não ouves esta música?--perguntei.
--Ouço. Mas não ainda como tu. Hei-de ouvi-la sempre,
suponho.
--Mas não és crente, tu.
--Se o fosse, não a ouvia suponho. Os que estão dentro
não a ouvem: cantam-na. A terra não se conhece a si própria.
--Terás tu... Terás tu achado o que procuro?
...essa superação de todo as angústias, de todas as dúvidas?
Terás tu visto o absurdo e o milagre, e ficado tranquilo?
--Não sei o que queres dizer. Mas tenho a certeza de
que não achei o que procuras. Porque, se tu procuras, só tu
podes achar.
Vergílio Ferreira (in "Aparição")
quarta-feira, dezembro 13, 2006
From Her To Eternity
(Der Himmel über Berlim)
"Não há história maior do que a de nós dois:
homem e mulher
Será uma história de gigantes"
segunda-feira, dezembro 11, 2006
O Caos do Sonho
Estou deitado no sonho não
perturbes o caos que me constrói
Afasta a tua mão
das pálpebras molhadas
Debaixo delas passa
a água das imagens
Gastão Cruz
perturbes o caos que me constrói
Afasta a tua mão
das pálpebras molhadas
Debaixo delas passa
a água das imagens
Gastão Cruz
domingo, dezembro 10, 2006
Rasgar

como um raio a rasgar a vida, como uma flor
a florir desmedida, como uma cidade secreta
a levantar-se do chão, como água, como pão,
como um instante único na vida, como uma flor
a florir desmedida, como uma pétala dessa flor
a levantar-se do chão, como água, como pão
assim nasceste no meu olhar, assim te vi,
flor a florir desmedida, instante único
a levantar-se do chão, a rasgar a vida,
assim nasceste no meu olhar, assim te amei
vida, água, pão, raio a rasgar uma cidade secreta
a levantar-se do chão, flor a florir desmedida.
José Luís Peixoto
quinta-feira, dezembro 07, 2006
Quantas máscaras usamos...

How many masks wear we, and undermasks,
Upon our countenance of soul, and when,
If for self-sport the soul itself unmasks,
Knows it the last mask off and the face plain?
The true mask feels no inside to the mask
But looks out of the mask by co-masked eyes.
Whatever consciousness begins the task
The task’s accepted use to sleepness ties.
Like a child frighted by its mirrored faces,
Our souls, that children are, being thought-losing,
Foist otherness upon their seen grimaces
And get a whole world on their forgot causing;
And, when a thought would unmask our soul’s masking,
Itself goes not unmasked to the unmasking.
Fernando Pessoa
quarta-feira, dezembro 06, 2006
mãe...
mãe, eu sei que ainda guardas mil estrelas no colo.
eu, tantas vezes, ainda acredito que mil estrelas são
todas as estrelas que existem.
José Luis Peixoto
eu, tantas vezes, ainda acredito que mil estrelas são
todas as estrelas que existem.
José Luis Peixoto
segunda-feira, dezembro 04, 2006
sábado, dezembro 02, 2006
Novos e Outros Ventos
Ás vezes gostaria de estar no sítio onde as ondas
morrem na areia e desfazer-me em espuma.
Aí, perdem-se para sempre, como se não existisse
nada senão a altura das árvores,
ou perder-me para sempre por nada ser para sempre,
nada eterno ou cristal como a eternidade
de morrer e inventar a casa.
Os ventos frios vão e vêm. São pássaros,
como as marés que vão de um rio a outro
e voltam à mesma água.
Francisco José Viegas
morrem na areia e desfazer-me em espuma.
Aí, perdem-se para sempre, como se não existisse
nada senão a altura das árvores,
ou perder-me para sempre por nada ser para sempre,
nada eterno ou cristal como a eternidade
de morrer e inventar a casa.
Os ventos frios vão e vêm. São pássaros,
como as marés que vão de um rio a outro
e voltam à mesma água.
Francisco José Viegas
quarta-feira, novembro 29, 2006
Tinha comigo um pedaço de ti
tinha comigo um pedaço de ti
e enquanto caminhava
cada passo evocava a tua presença
e tu estavas mais perto
de vez em quando arrancava uma memória
para passar o tempo
e sangrava muito sempre que o fazia
e um sentimento de culpa
invadia-me por dentro
e eu sentia que estavas perto
e ao mesmo tempo tão distante de mim
às vezes perco a memória da tua voz
José Rui Teixeira
e enquanto caminhava
cada passo evocava a tua presença
e tu estavas mais perto
de vez em quando arrancava uma memória
para passar o tempo
e sangrava muito sempre que o fazia
e um sentimento de culpa
invadia-me por dentro
e eu sentia que estavas perto
e ao mesmo tempo tão distante de mim
às vezes perco a memória da tua voz
José Rui Teixeira
terça-feira, novembro 28, 2006
Encantamento
há uma palavra mágica que se diz. essa palavra
é sempre diferente. montanha, precipício, brilho.
essa palavra pode ser um olhar. a voz. um olhar.
essa palavra pode ser o espaço de silêncio onde
não se disse uma palavra. brilho, ...................., montanha.
essa palavra pode ser uma palavra, qualquer palavra.
há uma palavra mágica que se diz. há um momento.
depois dessa palavra, só depois dessa palavra,
pode começar o amor.
José Luís Peixoto
é sempre diferente. montanha, precipício, brilho.
essa palavra pode ser um olhar. a voz. um olhar.
essa palavra pode ser o espaço de silêncio onde
não se disse uma palavra. brilho, ...................., montanha.
essa palavra pode ser uma palavra, qualquer palavra.
há uma palavra mágica que se diz. há um momento.
depois dessa palavra, só depois dessa palavra,
pode começar o amor.
José Luís Peixoto
segunda-feira, novembro 27, 2006
sexta-feira, novembro 24, 2006
O Jogo
(Quadro de Salvador Dali)Por conseguinte eu ia no jogo. Sabia que elas gostavam que se não fosse muito depressa ao fim.
Antes de tudo, era preciso conversa, ternura, como elas dizem.
Quanto a discursos, não estava eu mal, pois era advogado, nem quanto a olhares, pois tinha sido, na tropa, aprendiz de comediante. Mudava muitas vezes de papel, mas tratava-se sempre da mesma peça. Por exemplo, o número da atracção incompreensível, do «não sei quê», do «não há razões, eu não desejava ser atraído, estava, no entanto, cansado do amor, etc., ...» era sempre eficaz, posto que seja um dos mais velhos do reportório. Havia também o da felicidade misteriosa que nenhuma outra mulher jamais nos deu, que é talvez sem futuro, de certeza mesmo (pois nunca as precauções são demais), mas que, precisamente, é insubstituível. Eu tinha aperfeiçoado, sobretudo, uma pequena tirada, sempre bem recebida, e que o senhor aplaudirá, tenho a certeza. O essencial desta tirada consistia na afirmação, dolorosa e resignada, de que eu não era nada, não valia a pena prenderem-se a mim, a minha vida estava alhures, passava ao lado da felicidade de todos os dias, felicidade que talvez eu preferisse a tudo o resto, mas, enfim, era tarde demais. Sobre as razões deste atraso decisivo, eu guardava segredo, pois sabia que era melhor dormir com o mistério. Em certo sentido, aliás, acreditava no que dizia, vivia o meu papel. Não admira, pois que também as minhas parceiras se entusiasmassem também com o delas. As mais sensíveis das minhas amiguinhas esforçavam-se por me compreender, e este esforço, levava-as a melancólicos abandonos. As outras, satisfeitas por verem que eu respeitava as regras do jogo e tinha a delicadeza de falar antes de agir, passam sem esperar às realidades. Tinha então ganho e duplamente, pois que, além do desejo que sentia por elas, satisfazia o amor que eu me dedicava, verificando de cada vez os meus belos poderes.
Albert Camus (in «A Queda»)
terça-feira, novembro 21, 2006
See my ships...
sábado, novembro 18, 2006
Esquecimento
Que quer isto dizer, «pensar em alguém»? Quer dizer: esquecê-lo (sem esquecimento, não há vida possível) e despertar muitas vezes desse esquecimento.
Roland Barthes
Roland Barthes
sexta-feira, novembro 17, 2006
quarta-feira, novembro 15, 2006
Através da Chuva e da Névoa
(Foto de Stewart Lloyd-Jones)Chovia e vi-te entrar no mar
longe de aqui há muito tempo já
ó meu amor o teu olhar
o meu olhar o teu amor
Mais tarde olhei-te e nem te conhecia
Agora aqui relembro e pergunto:
Qual é a realidade de tudo isto?
Afinal onde é que as coisas continuam
e como continuam se é que continuam
Apenas deixarei atrás de mim tubos de comprimidos
a casa povoada o nome no registo
uma menção no livro das primeiras letras?
Chovia e vi-te entrar no mar
ó meu amor o teu olhar
o meu olhar o teu amor
Que importa que algures continues?
Tudo morreu: tu eu esse tempo esse lugar
Que posso eu fazer por tudo isso agora?
Talvez dizer apenas
chovia e vi-te entrar no mar
E aceitar a irremediável morte para tudo e todos
Ruy Belo
terça-feira, novembro 14, 2006
Porquê ?
Ao mesmo tempo que se interroga obcecadamente por que motivo não é amado o sujeito apaixonado vive com a convicção de que, na verdade, o objecto amado o ama mas não diz.
Roland Barthes
Roland Barthes
sexta-feira, novembro 10, 2006
De Repente
Soneto de separação
De repente do riso fez-se pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.
De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento fez-se o drama.
De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sózinho o que se fez contente.
Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.
Vinícius de Moraes
terça-feira, outubro 31, 2006
Fado Alexandrino
Se neste mundo o amor fosse paixão justa
bem repartida entre quem ama e é amado
ninguém faria tanta coisa que me assusta
ninguém cantava letras como a deste fado
Se para os homens o amor fosse coisa boa
que só lhes desse algum prazer e alegria
ninguém que muito amasse alguém andava à toa
e um coração apaixonado não doía
Se nesta vida o amor fosse um sentimento
que desse mais que a cada noite uma ilusão
nenhum amante lançaria assim ao vento
tantas mentiras e promessas sem razão
Se cada amor fosse maior do que um desejo,
do que esta febre que afinal não vale nada,
talvez o fogo que se acende em cada beijo
ainda brilhasse para lá da madrugada
Fernando Pinto do Amaral
segunda-feira, outubro 30, 2006
Domingo Sem Deus na Terra da Solidão
Todo o dia e sem parar, ele ouvia uma mesma voz:
«Foge para o mar! Aqui estão todos sós!»
Quando a peste da solidão se abateu sobre o seu olhar, recusou e disse que não: que era o medo de amar.
E fugiu, voltou para casa sem um pio, sem um som, engoliu a madrugada e dormiu, e sonhou, já o dia gritava:
«Vem, vem! E gasta essa esperança, seu filho da mãe! Esquece essa coisa do mal e do bem! E gasta-te todo e a tudo o que tens!»
E acordou, acordou sem cedo ou tarde: murmurou, tropeçou, pela casa, pelo carro, e avançou pelo cais, já as águas chamavam:
«Vem, vem! E gasta essa esperança, seu filho da mãe! Esquece essa coisa do mal e do bem! E gasta-te todo e a tudo o que tens!»
J. P. Simões
«Foge para o mar! Aqui estão todos sós!»
Quando a peste da solidão se abateu sobre o seu olhar, recusou e disse que não: que era o medo de amar.
E fugiu, voltou para casa sem um pio, sem um som, engoliu a madrugada e dormiu, e sonhou, já o dia gritava:
«Vem, vem! E gasta essa esperança, seu filho da mãe! Esquece essa coisa do mal e do bem! E gasta-te todo e a tudo o que tens!»
E acordou, acordou sem cedo ou tarde: murmurou, tropeçou, pela casa, pelo carro, e avançou pelo cais, já as águas chamavam:
«Vem, vem! E gasta essa esperança, seu filho da mãe! Esquece essa coisa do mal e do bem! E gasta-te todo e a tudo o que tens!»
J. P. Simões
sábado, outubro 28, 2006
Cantiga de Amor
Tão cedo esquece a pele a mão que a despe
tão cedo sara o coração a ferida
por onde se esvaía inteira a vida
tão cedo desacende o amor o tempo
A alegria é uma nuvem lida
no azul da memória quando cessa
do corpo redentor a promessa e nenhuma
praia já queima o fogo do sorriso
Alegre pele que faltas no meu dia
sorriso que meu rosto já não vês
curado coração do amor, abrigue-me
vosso tempo de novo, a que pertenço
Gastão Cruz
tão cedo sara o coração a ferida
por onde se esvaía inteira a vida
tão cedo desacende o amor o tempo
A alegria é uma nuvem lida
no azul da memória quando cessa
do corpo redentor a promessa e nenhuma
praia já queima o fogo do sorriso
Alegre pele que faltas no meu dia
sorriso que meu rosto já não vês
curado coração do amor, abrigue-me
vosso tempo de novo, a que pertenço
Gastão Cruz
quarta-feira, outubro 25, 2006
sexta-feira, outubro 20, 2006
Acção
(...)A acção traz-nos consolo, é inimiga das lúgubres meditações e
amiga das ilusões lisonjeiras. Só pela acção nos podemos sentir
senhores do Destino.(...)
Joseph Conrad
sexta-feira, outubro 13, 2006
quinta-feira, outubro 12, 2006
Fado da Memória
Não sei voltar ao passado
onde mora a nossa vida
vejo-te sempre ao meu lado
e não encontro saída
Cai a noite como dantes
mas qualquer coisa morreu
Porque estamos tão distantes
Quem és tu? E quem sou eu?
Já nem nos versos consigo
encontrar consolação
Nas palavras que te digo
ardeu o meu coração
Só queria ficar atento
ao que a lua ainda me diz
Queria ouvir a voz do vento
e aprender a ser feliz
Vaguear na noite escura
fingir que ainda estás aqui,
ir outra vez à procura
do que resta de ti
Fernando Pinto do Amaral
onde mora a nossa vida
vejo-te sempre ao meu lado
e não encontro saída
Cai a noite como dantes
mas qualquer coisa morreu
Porque estamos tão distantes
Quem és tu? E quem sou eu?
Já nem nos versos consigo
encontrar consolação
Nas palavras que te digo
ardeu o meu coração
Só queria ficar atento
ao que a lua ainda me diz
Queria ouvir a voz do vento
e aprender a ser feliz
Vaguear na noite escura
fingir que ainda estás aqui,
ir outra vez à procura
do que resta de ti
Fernando Pinto do Amaral
quarta-feira, outubro 11, 2006
O Nada
(...)
E Helena dizia no seu silêncio mais profundo: o amor é o desejo de fundir dois olhares.
Acredite-se ou não, é essa a verdade.
É esse o nada que tudo explica, porque é do nada que sai o movimento, a água mais simples, ou a pura invenção que um nome respira a sós.
(...)
Luís Carmelo
E Helena dizia no seu silêncio mais profundo: o amor é o desejo de fundir dois olhares.
Acredite-se ou não, é essa a verdade.
É esse o nada que tudo explica, porque é do nada que sai o movimento, a água mais simples, ou a pura invenção que um nome respira a sós.
(...)
Luís Carmelo
domingo, outubro 08, 2006
quinta-feira, outubro 05, 2006
Dança de aves
É sempre à água dos teus olhos que os pássaros
vêm beber: por eles sabem as horas e as tempestades,
marés e estações do ano. Aí se cruzam,
ei-los, os pássaros (ás vezes apenas aves perdidas),
espalham gotas de orvalho quando poisam,
entram nas pupilas quase dançando.
É sempre à água que mora nos olhos
que os pássaros regressarão depois do Inverno
virão as tempestades de branco e infinito,
nomes estranhos, ancoradouros dispersos,
a eles voltará o mundo e o trevo de quatro folhas,
a música e quase uma casa, agora branca.
Francisco José Viegas
segunda-feira, outubro 02, 2006
Raizes na Terra
(...)
Eu tenho e não tenho
Ando assim, que sorte
Ando em meias tintas
Nem fraco nem forte
Eu tenho e não tenho
Não é que me importe
Ninguém me confunde
Nem a própria morte
Ando ao que vier
Ao azar da sorte
Nem cá nem lá
Nem fraco nem forte
(...)
sexta-feira, setembro 29, 2006
Não me peças perdão
Não me peças perdão, a culpa é minha:
foi este tempo todo descuidado,
foi não achar que o fim um dia vinha
foi ficar sem defesas a teu lado
foi nunca te lembrar em sobressalto
foi não deixar falar a tua boca
foi não pensar em ventos no mar alto
foi tanta coisa, tanta, hoje tão pouca
foi deixar-me viver em falsa paz
foi afagar-te as mãos sem as prender
ou foi prendê-las mal e tanto faz
julgar que se morria de prazer
agora é tarde, sim, tarde de mais,
tropeço às cegas nesta dura lei,
não sei se vale a pena dar sinais
e o que te hei-de dizer também não sei.
Vasco Graça Moura
foi este tempo todo descuidado,
foi não achar que o fim um dia vinha
foi ficar sem defesas a teu lado
foi nunca te lembrar em sobressalto
foi não deixar falar a tua boca
foi não pensar em ventos no mar alto
foi tanta coisa, tanta, hoje tão pouca
foi deixar-me viver em falsa paz
foi afagar-te as mãos sem as prender
ou foi prendê-las mal e tanto faz
julgar que se morria de prazer
agora é tarde, sim, tarde de mais,
tropeço às cegas nesta dura lei,
não sei se vale a pena dar sinais
e o que te hei-de dizer também não sei.
Vasco Graça Moura
quinta-feira, setembro 28, 2006
Os Caminhos

(Foto: Neil Collier)
Não sigas as marcas que deixo por entre os lagos da chuva,
ainda que depois de ti ninguém mais habitasse a casa
dentro do meu coração. Depois de ti o deserto povoou
o que se foi confundindo com a neve, o abandono do jardim
e agora recordo que depois de ti ninguém mais navegou
nos oceanos, ninguém mais morreu de alegria de poder
voar sobre um nome. Não sigas, por isso, os meus passos
na terra molhada das primeiras chuvas do Inverno.
O coração vive fora da geografia e dos mapas. Enganos
e ilusões: isso me dás para consolar o frio à volta dos lagos.
Francisco José Viegas
quarta-feira, setembro 20, 2006
Praias
Dorme, flutua numa espécie de lago. A respiração dos seios empurra
contra as paredes do quarto, em ondas lentas, o meu corpo
afogado. Não consigo dormir.
Esperarei toda a noite nessas praias de cal, desertas, verticais.
Carlos de Oliveira
contra as paredes do quarto, em ondas lentas, o meu corpo
afogado. Não consigo dormir.
Esperarei toda a noite nessas praias de cal, desertas, verticais.
Carlos de Oliveira
segunda-feira, setembro 18, 2006
Na grande confusão deste medo...
Na grande confusão
deste medo
deste não querer saber
na falta de coragem
ou na coragem de
me perder me afundar
perto de ti tão longe
tão nu
tão evidente
tão pobre como tu
oh diz-me quem sou eu
quem és tu?
António Ramos Rosa
deste medo
deste não querer saber
na falta de coragem
ou na coragem de
me perder me afundar
perto de ti tão longe
tão nu
tão evidente
tão pobre como tu
oh diz-me quem sou eu
quem és tu?
António Ramos Rosa
quarta-feira, setembro 13, 2006
Esperança e Desespero
Who is not engaged in trying to impress, to leave a mark, to engrave his image on the others and the world?
We wish to die leaving our imprints burned into the hearts of others.
What would life be if there were no one to remember us when we are absent, to keep us alive when we are dead? And when we are dead, suddendly or gradually, our presence, scattered in ten or ten thousand hearts, will fade and disappear.
How many candles in how many hearts?
Of such stuff is our hope and our despair.
E. S. Shneidman (citado por Rubem Fonseca)
terça-feira, setembro 12, 2006
Tempo Circular
Andei pela memória à procura de saída,
e encontrei becos, muros, abismos; fui
ao futuro, sabendo que aí é a porta de ontem;
cruzei-me com velhos, almas penadas,
sombras; e voltei ao presente,
com as suas mesas de agora. Limpei-as
de toalhas e copos, risquei a madeira
onde uma frase se inscrevia, deixei
tudo sem nada e as palavras
em branco.
Então, recomeço tudo, entre passado
e futuro, no campo do presente.
Nuno Júdice
e encontrei becos, muros, abismos; fui
ao futuro, sabendo que aí é a porta de ontem;
cruzei-me com velhos, almas penadas,
sombras; e voltei ao presente,
com as suas mesas de agora. Limpei-as
de toalhas e copos, risquei a madeira
onde uma frase se inscrevia, deixei
tudo sem nada e as palavras
em branco.
Então, recomeço tudo, entre passado
e futuro, no campo do presente.
Nuno Júdice
quinta-feira, setembro 07, 2006
terça-feira, setembro 05, 2006
Lido nos Lábios
The good life is out there
I'm sure that is true
But where out there please tell me
Don't save it all for you
What luck is this
What does it mean
Is it waiting out there for me
Or is it only just a dream
Please tell all
Don't keep me in the dark
Feeling lonesome feeling sad
Waiting for that just one spark
Which path do I choose
What trail do I keep
Where are the answers
For all that I seek
? aka mayiplease
sexta-feira, setembro 01, 2006
Velocidade
Paul deixava a bicicleta embalar pelas encostas abaixo. As estradas eram escorregadias e ele não podia meter travões.
(...)
A bicicleta parecia desintegrar-se debaixo dele e Paul adorava a sensação.
O descuido é a vingança de um homem sobre a mulher. Sentindo que não é devidamente apreciado, arrisca a sua própria destruição, para que ela sinta a sua falta.
D.H. Lawrence
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